um dedo de prosa [66]



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Ele: tá melhor?
Ela: não muito.
Ele: você deveria se cuidar.
Ela: mas esse não é o seu papel?

manuscrito.



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você precisa ter em mente que comigo não há certeza, garantia e muito menos motivos certos pra existir. deixo minha razão ser conduzida pela emoção e vice-versa. meu sentimento é racional e o meu afeto é fraternal. não sei ser só de uma pessoa, mas aprendi a querer só uma. sei mexer com as palavras e até hoje não aprendi a dar som a elas. falo com sorriso, com olhar e no abraço. não procure o que você não deseja encontrar. não me subestime e nem tire suas conclusões se baseando em seus outros relacionamentos, sô tão previsível que estarei sempre te surpreendendo. gosto de ser assim e não vejo problema. se hoje eu danço na chuva, amanhã eu posso tá querendo sol. há coisas em mim que são de fábrica e você é livre pra aceitar ou não, mas só não vale reclamar ou tentar trocar depois. 
quem avisa amigo, é.

ato cem e dezoito




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às vezes eu tento caminhar fora dos meus padrões, tento alargar e ao mesmo tempo encurtar alguns passos. desejo dar oportunidade para o novo, procuro um jeito prático de exercitar a paciência, tento esperar as coisas acontecerem naturalmente, mas não consigo. minha pressa sempre me impede, quero pra ontem e quero pra daqui dez anos. não é a demora dos acontecimentos que me irritam e sim a incerteza, não gosto de coisas mais vulneráveis do que eu. algumas decisões precisam ser sólidas, mesmo que durem alguns dias. seja pra relacionamento, emprego, estudo ou a cor da roupa de baixo que tu vai usar na virada do ano. minhas decisões são tão momentâneas quanto de um camelão desfilando num arco-íris, mas eu aprendi a assumir e dar a cara pra bater - tô apanhando pra burro, só pra constar. sei que não posso ficar esperando uma garantia e então fazer algo, mas todo mundo precisa de uma brecha e se a brecha fica embaçada, eu já pulo pra janela que tá sempre aberta me esperando, é.

diga olá.




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qual é o seu preço? por quanto dinheiros você se vende? ou será que um sorriso basta? ou então um elogio? o que te faz voltar atrás numa decisão? uma boa noite de séquissu? uma promoção? um presente ou um bombom? o que coloca sua conduta em cheque? um rabo-de-saia ou um abdômen definido? quantas vezes você já se vendeu por causa do status? quantas vezes você abriu mão dos seus princípios só pra ficar bem (?) na foto? quantos copos de cerveja você já suportou só pra não pagar de careta?

a-b-c


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todos queremos uma companhia que seja amiga, que escute e tente resolver nossos problemas, que não deixa a distância ou os dias ruins abalarem a estrutura do relacionamento, que faça nosso coração acelerar e andar na marcha lenta, que dance com a gente mesmo quando não houver música, que nos cuide com zelo de vó, que faça os rins sorrirem e as mariposas dançarem no estômago, que seja um com a gente, que nos deixe saber o que se passa no coração, que demonstre confiança, que seja o porto seguro nos dias de tempestade, que cante para os males espantar, que sabe dizer não e impõe limites, que demonstre saudade e afeto. fora as outras particularidades.
mas antes de querer é preciso ser, visse?

só lindão.



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a solidão só durou alguns poucos meses, não houve tempo pra saudade ou pro arrependimento. o fim já tinha sido decretado e sacramentado, não tinha volta e sendo assim a vida tinha que seguir. trocou-se apenas os lençóis e as fotas que eram exibidas pela casa. agora a rainha do lar era outra, com outros hábitos e costumes. suas juras e textos de amor foram direcionados para outra amante. por que esperar? a vida corre, acaba e o que sobra? espalharam por ai que era impossível ser feliz só, então só haveria felicidade com outra pessoa ao lado, por isso a pressa e o desespero. mas onde fica a garantia do serviço? como vamos saber se estamos amando aquele alguém de verdade se não tivemos tempo pra abstrair o antigo? tem como separar o amor novo do velho? o medo da solidão paralisa o raciocínio, só queremos alguém do lado sem se importar se alguém vai fazer diferença. é só questão de status e contagem, ninguém quer o troféu de solteiro. se amar pra que se podemos encontrar quem o faça? ser par com alguém vai além de dividir a cama. às vezes o fim é só o começo das nossas vidas e de outras vidas também.

particular.



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Janeiro: meu coração era só saudade e vontade de ir embora. embarquei numa profissão nova e fiz alguns planos. além de cultivar um novo lugar pra chamar de lar.

Fevereiro: alô alô graças a Deus.

Março: consegui licença pra tirar meu registro de contabilista e é a única lembrança que tenho.

Abril: abortei uma viagem que poderia ter mudado o percurso do meu ano e da minha vida.

Maio: percebi que dar aula era melhor do que ficar trancada num escritório e voltei a ser estagiária.

Junho: tive a graça de ser madrinha de uma linda história de amor. casei e separei.

Julho: resgatei um caso antigo e nem senti o mês passar.

Agosto: rompeu a tradição do desgosto e me fez encontrar pessoas que de fato mudariam a minha vida.

Setembro: vi o mundo girar e me colocar de pernas pro ar.

Outubro: voltei a ser oficialmente um bichinho de escritório. pensei que tinha encontrado o amor, mas era cilada cilada cilada.

Novembro: me trouxe a oportunidade de reviver um sonho e só estava servindo como contagem regressiva, mas dai uma faísca se acendeu por perto e eu tô esperando o incêndio começar. 

ato cem e vinte.




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odeio acordar e não ter um chinelo na beirada da cama. odeio sair do banho e não ter um pano pra secar meus pés. odeio perguntas constrangedoras. odeio gente que abraça de lado. odeio gente me julga por eu ouvir funk. odeio gente que se acha inteligente. odeio gente que disputa quantos livros já leu. odeio gente que odeia filmes dublados. odeio gente que tenta adivinhar minhas respostas ou ações. odeio cagar e não ter papel. odeio água gelada. odeio sair de casa menstruada. odeio esperar respostas. odeio ver minhas coisas mexidas por terceiros. odeio que olhem minhas mensagens. odeio que peguem meus doces. odeio dormir sem dois travesseiros. odeio saudade. odeio banho frio. odeio rapaz que olha mulher como se ela fosse um bife. odeio velho que paga conta no horário do almoço. odeio fila de cinema. odeio acordar cedo. odeio pegar o tubo-de-pasta e saber que apertaram no meio. odeio sabonete em barra. odeio toddy. odeio algumas palavras. odeio a frase 'no tempo certo vai acontecer'. odeio gente sem iniciativa. odeio mimimi desenfreado. odeio não-me-toque-não-me-reles. odeio gente que corrigi meu dialeto. 
é.

me-dô.




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ela não o conhecia, era o vigésimo encontro, mas ela ainda nem sabia qual foi a primeira música que ele aprendeu a tocar e ele ainda não tinha percebido que ela comia as coisas de trás pra frente. ele a encontrava todo sábado e ainda ficava na dúvida do que ela fazia nas terças e ela nem imaginava como eram as quarta dele. era o começo ou então o meio de tudo, detalhe pouco importante. no começo ele tinha medo dela descobrir que ele dormia com meias de bolinha, enquanto ela se preocupava com a ideia dele perceber sua mania de lavar as mãos toda hora. 
todo mundo é assim, fica com medo de mostrar suas falhas, seus defeitos, suas manias, suas neuroses e coisas do tipo. ficam com medo porque acham que todas essas coisas são ruins, mas há gente tão estranha por ai que é capaz de ver toda essa bagunça com olhar de graça e achar graça. do mesmo jeito que fazemos com os outros. o ser humano é estranho, por isso é tão atraente.
ele passou a visitá-la nas terças e descobriu que ela ficava em casa, com meias de bolinhas amarelas, lendo. ela saiu da faculdade e foi passar a quarta com ele e percebeu que ele lava as mãos com a mesma frequência que ela. ele tocou pra ela a primeira música que saiu de seu violão e ela o ensinou a comer de trás pra frente. 
(...)

um dedo de prosa [65]




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Ela: andei falando de você.
Ele: por que?
Ela: precisava de um assunto.
Ele: com tanto assunto bom por aí ...
Ela: eu escolhi o melhor que tinha.

ser lembrada.



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intimidade a gente não compra ou troca, ela acontece na hora e do que jeito que quer e nem escolhe com quem vai ser. pode vir com o dia-a-dia ou então com o desejo de bom dia que rola quando nos encontramos com alguém. há níveis diferentes para pessoas diferentes. as pessoas estão sempre confundindo alho com baralho, querem apostar numa coisa que nem é delas e perdem o jogo por medo de passar a vez.
 deixar a pessoa ser quem ela é ou quem ela quer ser é uma demonstração de afeto sem medida. não tentar adivinhar o que a outra pessoa deseja é dar a ela a liberdade de escolher. ficar com medo das reações alheias é perder o elemento surpresa que acelera as batidas do coração.
não se apresse em conhecer todos os gostos, medos, desejos, sonhos e planos do outro. faça com que cada descoberta seja celebrada com dignidade. porque depois que se explora tudo, perde-se a graça e a vontade. 
 não tome as pessoas por você, pois nem todos vieram do mesma forma.

só Ri, tá?



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guilherme estava parado embaixo da marquise de uma loja antiga, esperando a chuva passar. não queria molhar sua camisa nova. foi quando rita apareceu, passou pela calçada girando a sobrinha, como sempre teve costume de fazer. não só molhou como manchou a camisa do rapaz fresco que ali estava. 'VOCÊ É LOUCA?' 'eu te conheço?' 'OLHA SÓ O QUE VOCÊ FEZ NA MINHA CAMISA!' 'grandes merda' 'SÁCAMISA É NOVA E CUSTOU METADE DO MEU SALÁRIO' 'sorte a sua' 'ONDE TU PENSA QUE VAI? VOLTE AQUI!' ... 'QUAL SEU NOME?' 'ri, tá?' e lá ficou ele, sem saber se era o nome dela ou uma tirada irônica do destino.

interpretar a ação.



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no começo eu pensava que a frase: 'até que a morte nos separe', dita no final de vários votos de casamento, se referia a morte morte de algum dos dois, mas com o passar dos anos e dos relacionamentos fui chegando a outra conclusão.
 a morte física é pequena se comparada com a morte do respeito, porque sem respeito a gente não convive.
a morte física é imperceptível se comparada com a morte da cumplicidade, porque sem cumplicidade a gente tá só.
a morte física é insignificante se comparada com a morte da confiança, porque sem confiança não existe relacionamento e sim lamento.
a morte física é aconchegante se comparada  com a morte do abraço, porque sem abraço o sentimento não transferido.
a morte física é um alívio se comparada com a morte do desejo, porque sem desejo só sobra obrigação.
a morte física é indolor se comparada com a morte do amor, porque sem amor todos os outros sentimentos são só sentimentos.

um ponto e duas vistas.



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a olhos nu:
não tem garantia. não tem amor. não tem sexo. não tem promessa. não é o momento certo. sobra diferenças. não tem certeza. não tem contrato. não tem regra. não se te conhecimento ou qualquer outra coisa que se usa como desculpa justificativa para aceitar um relacionamento.
com óculos-cor-de-rosa:
não falta vontade de ficar junto. não falta carinho. não falta beijinho/beijo/beijão. não há vontade de desabraçar. não falta assunto. não falta planos. não falta trilha sonora. não falta colo. não falta o desejo. não falta aprendizado. não falta filme. não falta passeio. não falta destino ou qualquer outra coisa que se tem quando se é par.

cada um enxerga como quer.

um dedo de prosa [64]




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Ela: comprei um pingente pra te lembrar.
Ele: mas isso daí é um M!
Ela: que que tem?
Ele: meu nome começa com V!
Ela: é que é M de Mozão, pô!

brincadeira de criança.



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e lá vamos nós, ou não.
mãos grandes? avance 5 casas. não gosta de cinema? volte 6 casas. sabe cantar? pule mais 5 casas pra frete. escreve errado? volte pro começo do jogo e vá estudar!. sabe dançar? avance mais 7 casas. não gosta de café? volte 15 casas. tem barba? já tá na metade do caminho!. enche a cara igual uma porca? volte pro começo do jogo e procure o AA. é alto? adiante-se mais 7 casas.  não gosta de ler? volte 15 casas. toca algum instrumento? avance mais 13 casas!. sabe desenhar? pode pular mais 7 casas. tem preguiça de viajar? tá eliminado do jogo. hálito de maçã? mais 5 casas adiante. não tem atitude? nem no jogo entrou. sabe abraçar? pode ir pro final do jogo. sorriso maroto e branco? jogo quase ganho. frequenta micareta? volte 13 casas. tá sempre cheiroso? dácá um abraço e avance mais 13 casas!. é escritor-amador-profissional? bora marcar a data do casamento!. 

há manhã.



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é hora de ir pra cama, mas Anita não perde a vontade de escrever.
 há cerca de seis anos e alguns meses-não-lembrados ela conheceu Antônio e desde então ela lhe remete cartas com várias páginas. o encontro aconteceu enquanto ela esperava o chá e ele ocupava a única mesa com cadeira sobrando, ela se aproximou e sentou, sem cerimônia ou educação. Antônio morava há três cidades de Anita e ainda sim só a encontrava depois de trinta cartas trocadas, pois fazia parte do acordo que eles assinaram logo no primeiro encontro. Antônio não queria mulher alguma na sua porta e muito menos na sua cama, dizia que seu quarto era o seu santuário e seu reino. Anita não curtia andar de mãos dadas e nem queria gente lhe olhando antes mesmo dela conferir o bafo matinal. o relacionamento não sobrevivia, ele acontecia. o amor só foi ser percebido depois da centésima-nona carta, quando Anita ao invés de escrever sete páginas - como de costume -, só escreveu o nome dela junto com o de Antônio e fez um coração. ao abrir o envelope, Antônio sorriu com os olhos e fez algo proibido, ao ligar pra ela e cantarolar uma música de ninar - é, ligações também eram vetadas, não queriam a frustração de nenhuma ligação perdida ou então perder a hora do sono porque o outro havia esquecido de ligar.
 seguiam suas próprias regras, não ultrapassavam seus limites, obedeciam cegamente o fluxo do sucesso, até que o telefone de Anita tocou às 23:59 e uma voz do outro lado disse:
- o amanhã vem aí e quero que você venha junto.
Anita parou de escrever, rasgou as que já tinha escrito e desligou.
(...)

um dedo de prosa [63]



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Ele: não quer saber se nanei bom?
Ela: já sei que não.
Ele: por que?
Ela: porque eu não estava lá.
(risos)

errata.




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quero acreditar fielmente que o que estou sentindo por você é de verdade. que não é só um capricho do meu ego orgulhoso. te quero de volta, porque gosto de ser par com você. seus carinhos alcançam minha alma e acalmam meu espírito. seu olhar faz eu me sentir amada e desejada. suas palavras ultrapassam a barreira do ego e me tocam o coração, a ponto de me fazer desistir da pluralidade pra me tornar singular. não quero desistir antes de ter certeza de que não dependeu só de mim. não quero olhar pra trás e perceber que o a palavra final foi dada pelo ego. me perdoe o desjeito com o português, é o que o ódio tem um vocabulário mais recheado que o amor. tô tão acostumada a inventar sentimento, que quando é pra falar de mim mesma, na vera e real, eu perco a voz e a consciência. mas tô tentando me tornar melhor nesse quesito, só preciso praticar mais. 

amo você e seu nariz grande.

a+r.



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abraçar e soltar.
amar e não se deixar apegar.
disponibilizar para a primeira pessoa que quiser levar.