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nove.




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A essa altura ela já estava no quarto, então só precisou se levantar da cama, colocar um short e pegar um casaco. Foi até o banheiro, para escovar os dentes e quase não reconheceu a imagem refletida no espelho, pois já havia esquecido do quanto a felicidade lhe caia bem. 
Ele ainda estava no sofá, apenas com a toalha presa na cintura. Ao invés de correr para o quarto e colocar uma roupa, ele ficou no mesmo lugar, relendo cada mensagem que ela havia lhe mandado. Se passaram quinze minutos, então ele resolveu mandar uma mensagem  antes de ir se arrumar.
Agora foi a vez dela de cronometrar o tempo e percebeu que ele demorou trinta e cinco minutos. Cinco minutos que valeram a pena esperar, porque ele parecia muito mais lindo agora do que há algumas horas atrás. 'Isso é possível, produção?' - seu subconsciente fazia cada pergunta besta. 
Ele saiu do carro e foi buscá-la na portaria.
- Sua mãe vai pensar que eu quero te sequestrar pra mim.
- E ela tá errada?
A risada dele combinava muito com a dela.
- O sol só nascerá daqui meia hora, até lá o que faremos?
- Ouviremos as estrelas conversarem.
- De qual livro você fugiu?
- De um bem chato que não tinha você!
Novamente ele abriu a porta do carro para ela. Foram para a praia pelo caminho mais longo e não ultrapassaram a velocidade de 40km/h.
Enquanto o sol nascia, ele a arrastou para perto da água. Era hora de colocar aquela última mensagem em prática, que dizia:
'quer ser minha?'


oito.



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O sorriso de ambos não estava relacionado ao conteúdo da mensagem e sim com o fato de existir uma mensagem. Era aquele tipo de sorriso que qualquer um/a abre quando olha o celular e ver que aquela pessoa se lembrou da gente, entende? 
Uma sms foi levando a outra e um novo diálogo surgiu entre eles, ela da varanda do apartamento e ele jogado no sofá de casa. Ela não sabia, mas ele não estava tão longe assim.
Papo vai e papo vem, o relógio marcou 4:30 da manhã. Ela deu um pulo da cama e foi olhar pela janela, não conseguia acreditar que já tinha mandado mais de cem mensagens para ele. 'De onde saia tanto assunto?' - era o que ela ficava se perguntando.
Como era madrugada de sábado, ela arriscou um convite, segue o diálogo:
 'vamos na praia?' 'mas você não gosta de praia' 'mas eu quero ir' 'quando?' 'daqui uma hora' 'chego em meia hora' 'eu disse daqui UMA hora' 'é pegar ou largar' 'te pego! hehe' 'se arruma que eu tô chegando' ...


sete.



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Na tela o aviso de que havia uma nova mensagem e uma chamada perdida. Quase que por instinto ela retornou a ligação, mas desligou no segundo toque e foi colocar uma roupa. Não, ela ainda não tinha lido a mensagem.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, era a vez dele de perder a hora no banho. O repertório que antes tinha somente três músicas, passou a ter dez, que por coincidência - ou não -  eram todas as músicas que haviam tocado na loja de sucos. Sim, uma memória de elefante!
Mesmo com a curiosidade corroendo seu corpo aos poucos, ela se segurou até chegar na varanda. Jogou as pernas para cima da mesa e deitou na cadeira. Pegou o celular e foi procurar pela nova mensagem.
Depois de quase esvaziar a caixa d'água, ele desligou o chuveiro e enrolou a toalha na cintura - sim, ele era desses! -, foi procurar pelo celular e se tocou de que havia esquecido no carro. Agiu como ela, saiu de casa e foi até o carro, só que de toalha e descalço! 
Antes mesmo de ler a mensagem, ela resolveu mandar uma. Sim, muito atrevida!
Foi então, a vez dele de pegar o celular e sorrir.


seis.



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Antes dele fazer qualquer piadinha ou comentário, ela se virou e entrou. Enquanto isso, sua consciência e sua emoção dialogavam dentro de sua mente: 'quando será que ele vai ligar?' 'se é que ele vai ligar, né?', para colocar fim naquela conversa ela abriu a porta e e correu para o banheiro, precisava de um banho.
Mesmo acreditando na ousadia dela, ele resolveu conferir e procurar o número dela. Pesquisou por 'Dora' e não encontrou nada, por alguns minutos perdeu a esperança e chegou até imaginar que ela havia mentido para ele. 
A água morna caia pelo seu corpo e ela repassava repetidamente as cenas daquela tarde insólita por sua mente. Aproveitou que estava sozinha e colocou a banheira para encher, não tinha a menor pressa de sair do banheiro.
Ele por sua vez jogou o celular no banco do carona e seguiu rumo. O som da gargalhada dela não saia da sua cabeça, então ele resolveu ligar o som no máximo!
Entre espumas e patinhos de borracha, ela se divertia no banho. Criando diálogos e evitando as expectativas.
E lá estava ele, com o carro estacionado e o celular na mão. Foi quando finalmente a sua ficha caiu.
Suas mãos e seus pés pareciam pertencer a uma mulher de 101 anos, então ela se enrolou na toalha e foi para o quarto. Antes de procurar uma roupa, ela foi procurar pelo celular e quando o encontrou, sorriu.


cinco.



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Dizem que quando a coisa é boa, a gente não percebe a correria dos ponteiros pelo relógio. Foi exatamente o que aconteceu com eles naquela tarde. 
- Eu nunca tomei tanto suco na vida!
- Aconselho a senhorita a dormir de fraldas hoje.
- É o que você faz?
- Às vezes.
Entre sucos e risos, eles foram se conhecendo. Ela descobriu que ele era filho único e três anos mais velho. Já ele percebeu que ela sempre batia nos joelhos ao sorrir e mordia o canto dos lábios quando ficava em silêncio.
- Você sempre sai com estranhos?
- Você sempre convida estranhas pra sair?
- Só as que eu encontro descalças pelos elevadores.
- Sei ... sei.
- Acho que a senhorita bebeu demais, vamos pra casa?
- Só mais um e nós podemos ir.
A verdade é que ela acabou tomando mais quatro sucos, faltou pouco pra ela experimentar todos os sucos do cardápio. Enquanto ela foi no banheiro - pela nona vez - ele foi pagar a conta.
Enquanto ela fechava a porta do carro, ele não se aguentou e perguntou:
- Não vai me passar seu número?
- Ele já tá salvo no seu celular.

quatro.



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Mil coisas se passaram na cabeça dela. Ela não sabia o que responder, porque pensava não saber do que ele estava falando. 
- Andou pesquisando a minha vida na internet?
Soltou um sorrisinho, porque não queria nenhum clima ruim.
- Quase. A verdade é que eu ouvi sua mãe gritar seu nome completo, segundos antes de você entrar no elevador.
Ele também riu, porque não queria deixá-la constrangida.
- Touché. Vinhemos aqui pra beber ou pra conversar?
- Podemos fazer os dois, se você não se importar.
- Você vem sempre aqui?
- Só todos os dias.
- Alguma dica?
- Você seria capaz de confiar em um estranho?
- Surpreenda-me!
Uma piscadela e a garçonete já estava de prontidão para anotar os pedidos. 
- Pronto, agora a gente pode conversar?


três.



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O paraíso, na verdade, era uma loja de sucos. Era o lugar que ele mais frequentava, depois da livraria.
- Primeiro as damas.
Era a primeira vez que ela entrava naquele lugar, apesar de conhecer a fama dos bons sucos que eram vendidos ali. Sempre que passava em frente dizia que iria voltar no dia seguinte, mas nunca voltou.
Uma garçonete apareceu e o abraçou calorosamente e disse:
- Pedro, sua mesa está vaga.
Ele agradeceu e lhe ofereceu um sorriso.
- É por ali.
Quando eles se sentaram, ela não perdeu tempo.
- Afinal de contas, qual é o seu nome?
- Como assim?
- Aquela moça te chamou de Pedro e você se apresentou como Guilherme pra mim.
- Do mesmo jeito que você se apresentou como Dora.
- O que você quer dizer?
- Que eu não sou o único a esconder o nome completo.

dois.



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Na verdade, ela demorou dezesseis minutos - sim, ele cronometrou o tempo.
Foi o tempo de procurar uma blusa qualquer e calçar o mesmo tênis de sempre.
- Onde você pensa que vai, senhorita?
- Mãe, o cara do elevador me chamou pra sair.
- Que cara?
- O que eu encontrei no elevador, enquanto fugia de você.
- VOCÊ FICOU NO ELEVADOR COM O RAPAZ? SÓ DE SUTIÃ?
- E descalça!
Ela respondia tudo com uma naturalidade tão grande, que sua mãe ficou sem saber se acreditava ou se lamentava. O motivo da fuga foi esquecido, ela bateu a porta e entrou no elevador. Assim que saiu, seus olhos o localizaram e ela foi em sua direção.
- Prazer, me chamo Dora.
Um sorriso amarelo e uma mão estendida, essa era a cena capturada por quem passava pela praça.
- Me chamo Guilherme e  na minha terra a gente cumprimenta as pessoas assim.
Ele estendeu a mão e a puxou pra perto, deu-lhe um abraço e três beijos nas bochechas. Antes dela ficar com vergonha, ele abriu a porta do carro.
- Onde vamos?
- Ao paraíso!

um.



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Tudo começou dentro do elevador, ela fugia da mãe e ele estava saindo para o trabalho - pelo menos foi o que ela pensou. Durante a fuga ela saiu somente de sutiã e short, entrou dentro do elevador sem reparar na existência dele, até que ele comentou:
- Tá calor, né?
Antes mesmo de conseguir pensar numa resposta, seu rosto já estava mais vermelho que tomate maduro. Ela olhou para trás e tentou agir como se estivesse completamente vestida.
- Pois é. 
- Você sempre vai pra rua assim?
- Assim como?
- Descalça.
Ele começou a rir e como não tinha jeito, ela riu junto. As risadas se misturaram e quando perceberam já estavam no térreo. A porta se abriu e ela foi caminhando junto com ele, sem se importar que lhe faltava a parte de cima da roupa e um calçado. O carro dele estava estacionado perto da praça, ele não falou nada, mas percebeu a companhia dela.
- Quer uma carona?
- Não não! A verdade é que eu preciso voltar pra casa, antes que a minha mãe me veja na rua assim, descalça.
Mais uma dose de risos e então uma pergunta inesperada.
- Aceita sair comigo?
- Quando?
- Eu diria agora, mas espero você ir se calçar primeiro.
- Volto em vinte minutos.