sexta-feira, 24 de julho de 2015

navega dor.





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daí então você pensa que conseguiu tudo. que o controle finalmente se encontra em suas mãos. a carreira profissional vai bem, o salário cai religiosamente na conta no final de cada mês. o coração se encontra preenchido com um relacionamento afetivo que tange a perfeição, tudo dentro das metas e objetivos. as contas estão dominadas e quitadas. sua casa se torna efetivamente o seu lar, mobiliado detalhadamente de acordo com as revistas de decoração. não há contradição, não há dúvidas de que a vida finalmente começou a te tratar como você (acha que) merece. o seu maior esforço é somente acordar, vestir a rotina e passar o dia. nenhum vento de eventualidade ... até que um furacão fora de escala te alcança e você começa a dar valor aquela velha e clichê frase que dizia: mar calmo nunca fez bom marinheiro.

extrato



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eu já cai de bicicleta. já misturei doce com salgado. já vendi trabalho escolar. já troquei resposta por bala. já conversei no chat terra. já cantei na hebecam. já beijei no primeiro encontro. já sai de casa pra conhecer estranhos. já fui dormir na casa de amigos virtuais. já tive coleção de casinhos virtuais. já me apaixonei no coletivo. já fui traída. já me vinguei. já fui em boate gay. já dancei até o chão. já fiquei bêbada com vinho barato. já beijei menina. já sonhei com famosos. já cai da escada/do sofá/da cama/da calçada. já consegui comer 3 pastéis com 3 caldos de cana. já entrei no mar de roupa. já vi o sol nascendo. já virei noite no msn/no skype/no celular. já recebi carta que nunca respondi. já escrevi carta que nunca enviarei. já anotei minha vida numa agenda. já contei segredo pra estranhos. já fiz amizade com motorista de ônibus. já pulei no colo dozoto. já fui no shopping de chinelo e meia. já fui na padaria com a toalha na cabeça. já mandei sms errada. já entrei em site pornô. já desliguei telefone na cara. já deixei de sair por causa da menstruação. já rolei de cólica. já peguei em algumas bundas. já guardei segredos alheios. já chorei em show de sandy e júnior. já me declarei. já quebrei a cara. já fiz hora com a cara alheia. já sai do mercado sem pagar pelo biscoito. já li livro pela capa. já queimei a língua com brigadeiro. já mergulhei a batata frita no sundae. já colecionei folha de fichário. já catei caneta em recepções. já dei bolo nozoto. já fui no cinema sozinha. já namorei sozinha. já dancei no terminal de ônibus. já viajei sozinha. já vivi em mundos paralelos criados por mim. já escrevi sobre mim na terceira pessoa. já trabalhei por meio expediente. já chorei de alegria. já gargalhei sozinha. já passei horas na cama vendo seriado. já devorei um livro em uma tarde. já chorei com propagandas. já xinguei a mãe dozoto. já perdi dinheiros. já xavequei meus amigos. já pedi rapazes em namoro. já quebrei promessas. já fugi de mim pra me tornar quem sou. 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

escoar pensamento.



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entrei no coletivo lotado e já fui gritando:
- NÃO VOU ME DESCULPAR POR ATRAPALHAR A VIAGEM DE VOCÊS, PORQUE HOJE É TERÇA E ELE NÃO É PERMITIDO SER BOM.
os olhares que estavam voltados para seus celulares ou colos foram voltados para mim. me sentei na roleta e avisei que só passariam por mim depois que toda minha dor fosse escoada. as pessoas pensaram que aquilo era parte de alguma publicidade nova, que no ponto seguinte iria subir uma pessoa que solucionaria o meu problema e assim todos ganhariam luz para seus próprios problemas, porque todos temos algum sofrimento em comum. 
tomei um gole de água e continuei a me lamuriar, como se estivesse no twitter, mas sem limite de caracteres. meu tempo era ilimitado, porque aquela viagem de ônibus não tinha destino certo. eu poderia ter ligado para minha mãe, para uma tia ou algum amigo, mas desabafar com estranhos sempre foi mais sincero. eles não podem me julgar, pois só conhecem um lado da moeda e esse lado era a minha coroa.
 com o balançar das curvas e a cada palavra proferida, eu ia me sentindo melhor e mais leve. os olhares eram variados. havia para todos os gostos e sentimentos. até um lenço me foi oferecido, apesar deu não marejar nenhum olho. a solidariedade alheia me comoveu mais do que meus próprios problemas. comecei a pensar que todos ali mereciam uma oportunidade de cuspir para fora aquele catarro de sentimento que lhe entupiam o peito.
- DECLARO ABERTA A ROLETA DO DESABAFO, ALGUÉM MAIS QUER SENTAR AQUI?
a primeiro instante todos ficaram paralisados e fingindo não ouvir minha proposta indecente. até que o trocador se levantou se sua acolchoada cadeira e tomou meu antigo lugar. ele não fez cerimônia e gritou logo:
- QUERO CAFÉ QUENTE, CANSEI DE CAFÉ MORNO TODAS AS MANHÃS.
alguns risos foram esboçados nos rostos próximos. até uma pessoa lá de trás gritar:
- QUERO PÃO COM MANTEIGA E NÃO COM MARGARINA. 
outra disse:
- QUERO ANDAR SEM SUTIÃ E SEM JULGAMENTOS.
aos poucos todos fomos nos aliviando, aos gritos, aos choros, aos berros e a gargalhadas. foi quando dei sinal. não olhei para trás, não agradeci, não me desculpei. apenas parti, antes de deixar qualquer lágrima cair.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

um dedo de prosa. [75]



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ele: te amo!
ela: sorte a minha.
ele: e você, me ama?
ela: sou obrigada?