quarta-feira, 22 de julho de 2015

escoar pensamento.



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entrei no coletivo lotado e já fui gritando:
- NÃO VOU ME DESCULPAR POR ATRAPALHAR A VIAGEM DE VOCÊS, PORQUE HOJE É TERÇA E ELE NÃO É PERMITIDO SER BOM.
os olhares que estavam voltados para seus celulares ou colos foram voltados para mim. me sentei na roleta e avisei que só passariam por mim depois que toda minha dor fosse escoada. as pessoas pensaram que aquilo era parte de alguma publicidade nova, que no ponto seguinte iria subir uma pessoa que solucionaria o meu problema e assim todos ganhariam luz para seus próprios problemas, porque todos temos algum sofrimento em comum. 
tomei um gole de água e continuei a me lamuriar, como se estivesse no twitter, mas sem limite de caracteres. meu tempo era ilimitado, porque aquela viagem de ônibus não tinha destino certo. eu poderia ter ligado para minha mãe, para uma tia ou algum amigo, mas desabafar com estranhos sempre foi mais sincero. eles não podem me julgar, pois só conhecem um lado da moeda e esse lado era a minha coroa.
 com o balançar das curvas e a cada palavra proferida, eu ia me sentindo melhor e mais leve. os olhares eram variados. havia para todos os gostos e sentimentos. até um lenço me foi oferecido, apesar deu não marejar nenhum olho. a solidariedade alheia me comoveu mais do que meus próprios problemas. comecei a pensar que todos ali mereciam uma oportunidade de cuspir para fora aquele catarro de sentimento que lhe entupiam o peito.
- DECLARO ABERTA A ROLETA DO DESABAFO, ALGUÉM MAIS QUER SENTAR AQUI?
a primeiro instante todos ficaram paralisados e fingindo não ouvir minha proposta indecente. até que o trocador se levantou se sua acolchoada cadeira e tomou meu antigo lugar. ele não fez cerimônia e gritou logo:
- QUERO CAFÉ QUENTE, CANSEI DE CAFÉ MORNO TODAS AS MANHÃS.
alguns risos foram esboçados nos rostos próximos. até uma pessoa lá de trás gritar:
- QUERO PÃO COM MANTEIGA E NÃO COM MARGARINA. 
outra disse:
- QUERO ANDAR SEM SUTIÃ E SEM JULGAMENTOS.
aos poucos todos fomos nos aliviando, aos gritos, aos choros, aos berros e a gargalhadas. foi quando dei sinal. não olhei para trás, não agradeci, não me desculpei. apenas parti, antes de deixar qualquer lágrima cair.

Um comentário:

Waldembergue Dantas disse...

que história legal de bonita. viajei junto, sorrindo, claro.