terça-feira, 12 de agosto de 2014

sobre aquela ausência.



.
no ano de dois mil meu presente de dia das crianças chegou com um mês de antecedência, tinha um metro e setenta, barriga saliente e pisava no estilo raso-fundo. nosso primeiro abraço rolou num laboratório no centro da capital e eu não consigo lembrar quando foi o último. 
eu estava vivendo os últimos suspiros da infância e ele teve uma participação mais do que essencial na minha vida. na companhia dele eu podia ser a menina que o povo conhecia na rua, que tinha a boca mais suja que os moleques e que sabia cantar quase todas as músicas que tocavam na rádio - ele achava isso um máximo e nunca perdia a oportunidade de contar para os amigos. 
ele foi confidente de minhas brigas escolares, das minhas paixões pelos rapazes mais velhos - que um tempo depois se tornaria por rapazes mais novos -, dos meus questionamentos a respeito de tatuagem e piercings, das minhas teorias sobre como a vida deveria funcionar, dos meus medos, dos meus sonhos e das minhas experiências com o álcool. eu não tinha nenhum medo de contar qualquer coisa pra ele, porque ele esperava eu terminar de falar antes de me condenar e dizia que fazia parte da idade. 
gostava de andar no banco do carona e olhar pro velocímetro do carro e notar que o ponteiro estava chegando a marca do 120 km/h.  acho que essa é a minha maior saudade. (snif)
desde dois mil e nove eu digo para as pessoas que não tenho pai, mas não é porque ele morreu - antes fosse. porque a morte é mais fácil de conviver do que a indiferença ou o abandono. mas durante nove anos eu tive um pai que foi o melhor amigo que eu já tive, que me conhecia melhor que a minha avó, que sabia me agradar como se fosse a coisa mais fácil do mundo e que tinha o melhor colo do mundo. 
domingo eu fui obrigada a ler várias declarações de afeto de filhos para seus pais maravilhosos e me senti com nove anos, me senti sobrando nessa comemoração que alguns só enxergam como data comercial. 
nunca senti inveja de quem tem um pai foda, nunca quis ter um pai igual ao do fulano e nunca me deixei abater pela ausência do meu. vivi meus primeiros dez anos de vida sem e estou há cinco anos revivendo tudo de novo. hoje é mais difícil, mais penoso e chega causar estragos na minha alma, porque uma coisa é tu nunca ter tido algo e outra é tu vê indo embora por vontade própria.

Um comentário:

Berg Dantas disse...

nossa fran, que coisa mais linda.
você abriu uma dor tão íntima de maneira tão real e bonita.
isso é uma das coisas que mais gosto em você. o modo como sempre há algo novo pra descobrir, de maneiras tão lindas!
te amo! ♥